Depois de ser mãe nunca mais consegui ficar imune a filmes, imagens, histórias ou relatos que envolvam histórias tristes, maus tratos ou morte de crianças. Abriu-se uma ligação directa entre o coração e as lágrimas, o que apesar de perceber a razão subjacente, é ainda assim de díficil explicação a facilidade com que me emocionava, porque eu fui educada sob a máxima de"uma mulher não chora". E a verdade é que nos momentos mais tristes da minha vida eu não consegui verter uma lágrima, e como teria sido catártico se o tivesse conseguido. Ter-me-ia poupado a muita coisa. Ter recuperado algum escape emocional fez-me sentir mais humana novamente e sobretudo aliviar-me emocionalmente de fardos que me remoem de tempos a tempos.
Depois de ter sido mãe novamente, essa ligação directa voltou a fechar-se. Agora é como se um muro se tivesse erguido. Não sou capaz sequer de ler algo se suspeitar que vai roçar sequer essa temática. Sou uma avestruz emocional. Coloco a cabeça na areia e ignoro completamente, ao ponto de interromper o meu interlocutor e pedir-lhe para parar com a história. O mundo não é cor-de-rosa, mas dispenso a contaminação do meu mundo com males que não consigo evitar ou combater. E com isto perdi a minha ligação directa...
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sábado, 13 de maio de 2017
domingo, 9 de maio de 2010
A volta do correio
Anda com um postal de Cuba no meio das coisas de trabalho. Cores quentes. Impera o verde, o laranja e o amarelo. As figuras têm a pele curtida pelo tempo. E tempo parece ser o que mais têm para gastar. Não retrata paisagens ou murais à revolução. Não aparecem referências a Che, charutos, mojitos ou carros dos anos 50. É apenas um pedaço de tempo suspenso em que 3 velhotes estão em volta de uma mesa velha e vazia. Para onde quer que vá, o postal segue viagem também. Com ele já percorreu vários continentes. Perguntaram-lhe porquê. Porque tinha sido uma oferta. E todas as ofertas levam consigo um pouco de quem as deu. Fiquei surpresa. Nem me lembrava que tinha sido uma oferta minha, tantos foram os anos que passaram. E mesmo antes de saber disso, a primeira coisa em que pensei quando vi o postal foi que esta seria uma imagem que eu teria escolhido para mim.
Foto daqui
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Natal, azevias e etc.
Já foi vivido com muita intensidade. Com imenso cuidado nos preparativos, desde a selecção criteriosa das ofertas, ao cuidado na escolha do papel de embrulho, passando pelo prazer de fazer e escrever os postal que mandava nos quais dava largas a uma pretensa veia artística a raiar a bricolagem. As missivas eram sentidas, emocionais, guiadas pelo prazer de imaginar um largo sorriso quando fossem lidas.
O dia 24 era passado a trabalhar arduamente, mas no regresso a casa ao final do dia, o aroma da doçaria calava de imediato as dores do corpo e transportava-me para um ambiente de infância, por entre a azáfama dos preparativos da ceia envolta numa algazarra saudável.
Ao longo dos anos e já na idade adulta fui percebendo que a visão algo infantil e pueril do Natal era apenas minha, cada vez mais tolerada pelos demais e menos participada pelos mesmos. Aquela que seria uma ocasião para se estar com a família, para nos desfrutarmos uns dos outros, sem pressas, tornou-se em algo que roça o banal e quase uma obrigação. Fala-se das desgraças, de quem morreu, das cruzes que doem, do dinheiro que se gasta nas prendas, na imposição do calendário que marca esta época como de família. Sim é verdade. Tudo isso é verdade. Mas gostaria também que se falasse do futuro, das coisas boas que se adivinham ou que anseiam, do prazer de estarmos todos juntos uma vez mais.
Gostaria de dizer que fui aceitando bem esta noção de Natal, que me sinto feliz assim e que consigo retirar sumo destes períodos, mas a verdade é sinto um vazio enorme. Era a altura em que a réstia de menina que sempre fui emergia sem reservas. Hoje talvez lhe chamem amadurecimento, maturidade ou outra coisa qualquer mas lá que sinto falta isso sinto… e muito…
O dia 24 era passado a trabalhar arduamente, mas no regresso a casa ao final do dia, o aroma da doçaria calava de imediato as dores do corpo e transportava-me para um ambiente de infância, por entre a azáfama dos preparativos da ceia envolta numa algazarra saudável.
Ao longo dos anos e já na idade adulta fui percebendo que a visão algo infantil e pueril do Natal era apenas minha, cada vez mais tolerada pelos demais e menos participada pelos mesmos. Aquela que seria uma ocasião para se estar com a família, para nos desfrutarmos uns dos outros, sem pressas, tornou-se em algo que roça o banal e quase uma obrigação. Fala-se das desgraças, de quem morreu, das cruzes que doem, do dinheiro que se gasta nas prendas, na imposição do calendário que marca esta época como de família. Sim é verdade. Tudo isso é verdade. Mas gostaria também que se falasse do futuro, das coisas boas que se adivinham ou que anseiam, do prazer de estarmos todos juntos uma vez mais.
Gostaria de dizer que fui aceitando bem esta noção de Natal, que me sinto feliz assim e que consigo retirar sumo destes períodos, mas a verdade é sinto um vazio enorme. Era a altura em que a réstia de menina que sempre fui emergia sem reservas. Hoje talvez lhe chamem amadurecimento, maturidade ou outra coisa qualquer mas lá que sinto falta isso sinto… e muito…
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