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sexta-feira, 15 de junho de 2018

Da empatia ou do que lhe queiramos chamar

Há situações, momentos, histórias de vida que me entram directamente neste buraquinho que tenho no peito, em mim permanecem e me cobrem de tristeza, e eu, que sempre me conheci forte e resiliente, deixo-me levar, maldigo a puta da má sina da história que me chega e afundo-me num silêncio de lágrimas. Já aqui o disse que a maternidade abriu em mim uma espécie de via rápida para a emoção, e certos "pormaiores" tocam-me particularmente, denunciam uma fragilidade talvez latente, talvez sempre existente mas não reconhecida até então. E um medo… um medo que nego sempre, mas que aqui vive, porque somos apenas passagem.
"Mãe, nós somos ricos não somos?...temos-nos uns aos outros, não é? A nossa família, não é?" hoje, depois de o deixar na escola fiquei a matutar nisto, que sendo uma coisa que lhe digo frequentemente, não tem por hábito repetir. Hoje, já depois de matutar nisto, soube que uma colega de escola dele tinha ficado órfã. Não sei se a conhece ou se brinca com ela. SE a pergunta que me fez resultou de algo que ouviu. Ou se foi mera coincidência. Mas hoje, hoje, mais do que nunca, tenho uma tristeza que não me abandona e apenas uma pergunta: porquê?

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sem título

Nada vou acrescentar ao que já foi dito sobre esta tragédia de Pedrogão Grande. Apenas que, tal como tantas outras pessoas, eu já fiz aquela estrada, num programa familiar, numa tarde de Verão. E, por muito que eu queira, que quero, não consigo esquecer aquela família de Sacavém, isto não me sai da cabeça. Eu sei que a psicologia explica, que as hormonas que ainda andam aqui aos saltos e tudo mais, mas não consigo esquecer.
Não consigo.
A única coisa que me apazigua na mesma medida que me consome são os longos abraços que dou aos meus filhos.

domingo, 23 de maio de 2010

Do silencio #4

Gosto de silêncios. A intensidade faz muitas vezes parte deste espaço de tempo mudo e ainda assim veste-me de cor quando nele habito. Sou pelos silêncios presentes, pelas ausências próximas, pelo pensamento vibrante e sentido. Sou pelo toque na palma da mão, percorrendo com a ponta do dedo todas as linhas da vida. Pelo encontro do olhar suspenso nas palavras que não são ditas. Sou pela tranquilidade, pela calma das horas sem rumo que desfilam sem pressa para terminar. Sou pelos abraços apertados quando tudo o resto é já sabido e sou ainda mais pelos abraços inesperados, sem palavras ou motivos expressos e que de tão intensos e sinceros se agarram a nós para sempre. Sou pela ausência de palavras mas não de sentidos. Pela partilha do indizível. Pelo momento. Sou pelos silêncios.

Foto daqui

quinta-feira, 18 de março de 2010

Do silêncio #3

Foto daqui
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Do silêncio #2

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

Eugénio de Andrade

















Foto daqui

sábado, 26 de dezembro de 2009

Do silêncio #1

Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio.
MST

Foto daqui