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domingo, 24 de janeiro de 2021

Confinamento – parte II

Onde íamos mesmo?

Pensei seriamente em fazer uma espécie de diário deste novo confinamento, só para um dia mais tarde perceber exatamente em que altura é que comecei a perder a minha sanidade mental. Mas entre tomar conta de duas crianças fechadas num apartamento de 80 m2, estar em teletrabalho, preparar as formações, sopas, roupa, e toda demais rotina doméstica, achei que seria humanamente impossível e resolvi guardar o pouco tempo que sobra para dormir qualquer coisa. Se há coisa que o anterior confinamento me ensinou foi perceber o quão fácil é perder a sanidade mental. De modos que, desta vez, delineamos uma estratégia adaptada aos tempos de guerra que por aqui se vivem. Guerra à loucura. Guerra à falta de paciência. Guerra ao impossível. E por isso rendemo-nos logo à evidência que isto vai ser duro (mais duro do que o confinamento anterior, pois antes eu estava em lay off e agora estamos os dois a trabalhar), vai ser longo (vai durar decerto muito mais do que os 15 dias iniciais) e vai ser intenso (com duas crianças substancialmente mais fartas de tudo aquilo que não podem fazer há já vários meses). E que estratégia é essa, Anna, que contas para ultrapassar esta tão difícil provação? Sobreviver aos poucos. Primeiro conseguir chegar ao almoço. Depois pensar que mais umas horas e será hora de jantar e depois disso a hora de irem dormir. Chegar ao final do dia e pensar que já passou mais um dia. Guardar momentos ao longo do dia para fazer parvoíces com eles. Tanto pode ser uma batalha de cócegas ou rebolar com eles pelo chão (dá também imenso jeito para varrer o chão ao mesmo tempo), ou fazer moche na cama. Só naquela de libertar a pressão. Apostar no copo de vinho à refeição (e ir mantendo a garrafeira atestada). Fazer turnos a tomar conta deles. Ir tentado manter o trabalho minimamente em dia (aqui é mais difícil e é onde eu começo a stressar mais facilmente). E então, Anna? Está a resultar? Até mais ver sim. Dia 3 do novo confinamento, está tudo vivo e ainda não nos divorciámos. Veremos no próximo report…

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Disto de ser mãe


É sermos este ser irracional que se emociona ao ver uma foto do caçula, imaginado (e quase que ouvindo) a gargalhada que ali ficou cristalizada. É olhar os olhos sorridentes, a pose de gingão, tão crescido e tão inocente, e pensar que queremos para sempre manter esta inocência e simplicidade. É esquecer o turbilhão de coisas a voar pela casa, mal a porta de se abre até que o sono leva a melhor; é sermos vencidos pelo abracinho, pelo pedido de colo, no minuto a seguir a ter ocorrido a maior birra que há memória. É lutar contra estas incertezas e manter a serenidade que estamos a ir na direção certa. É viver com o coração fora do peito, oferecendo-o como escudo contra tudo o possa ser menos bom, é sermos este ser emocional e emotivo que se comove com as coisas mais banais e insignificantes. E é ter a certeza que não há amor maior que este, que cresce todos os dias, um pouco mais, que não tem fim, nem teve início e que me leva a olhar muito para além do meu próprio umbigo, num exercício quotidiano que eu julgava não ser capaz.

domingo, 3 de novembro de 2019

Desta viagem

Sempre que penso que é desta que as coisas começam a acalmar, eis que surge mais um turbilhão de sentimentos, de dúvidas, incertezas, angústias, caminhos longos e esburacados. Tenho percorrido uma boa parte dos problemas deste país na primeira pessoa, e agora na parentalidade também. Certezas não há nenhumas, apenas o meu instinto, que não tendo validade cientifica nenhuma, ainda assim me faz acreditar que no fim isto tudo vai dar certo.  E é com este farol, esta esperança, que vamos iniciar mais um admirável mundo novo: o do espectro do autismo.
Pois bem... bring it on.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Regresso a casa

Uma parte importante de mim está aqui. E é aqui que regresso depois de um ano em que muita água passou debaixo da ponte.
Cá estamos. Cá continuamos.
Siga a vida.

sábado, 12 de agosto de 2017

As conquilhas e eu

Então, Anna Blue, que contas tu? Pois que a vida me corre bem, mas se calhar é mais prudente falar baixinho, para não atrair o mau agoiro, sobretudo agora que se respira um pouco de alívio. Corre-me bem porque estou a adorar este meu novo trabalho, creio mesmo que foi preciso andar uma vida inteira às voltas para chegar até aqui. Gosto do que faço, gosto das pessoas, gosto do ambiente, estou a aprender imenso, dão-me rédea solta para crescer profissionalmente, sem medo de falhar ou de ter hesitações, e ainda por cima estou ao lado de casa. Sinceramente, se há uns tempos atrás me dissessem que isto me ia acontecer, eu não acreditaria. Mas parece que sim, que nem sempre o Diabo está atrás da porta. Agora é tempo para, a pouco e pouco, ir continuando outros projectos que ficaram temporariamente em stand by, porque a vida dá demasiadas voltas para se ter algo como garantido. Hoje, estou aqui. Amanhã não sei. É um bocado como as conquilhas*. 

* silly season mode on.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Eu bem digo que a vida me é irónica #2

Quais são as probabilidades de:
a) Entregar um CV (por descargo de consciência) às 20h00 do último dia útil de candidatura, que por acaso é uma sexta-feira. Ser chamada para uma entrevista para as 10h00 do dia seguinte (sábado) e saber que fiquei com o lugar às 12h00 de segunda-feira?
b) Ser um emprego perto de casa (dá para ir a pé, caraças!)
c) Ser-me dada toda a liberdade para continuar a amamentar
d) Regressar a uma área onde já fui muito feliz (formação)
e) ter o senhor meu marido arranjado emprego também no mesmo fim de semana, na área que agora pretende seguir e que está completamente alinhada com o salto que pretendemos dar.
f) serem empregos para entidades diferentes mas em que ambas se complementam entre si.
g) serem o resultado de uma série de coincidências que começaram com um vislumbre de qualquer coisa assim que iniciamos as diligências para nos lançarmos.

É incrível o poder dos astros quando se alinham...

Claro que meia dúzia de horas depois o pc estoirou e perdemos o disco (e grande parte de uma vida em fotografias, coisa que ainda estou a digerir, sobretudo porque ainda não tinha feito backup das fotos do benjamim da família), só naquela para nos lembrar que devemos continuar com os pés assentes na terra...

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Borboletas na barriga

Às vezes gosto de pensar que a vida me colocou nesta situação para me obrigar a dar este salto de fé. Que toda a minha vida, a nossa vida, se emaranhou de forma a estarmos exactamente aqui, nesta encruzilhada, para tomar mais esta decisão, escolher este caminho. Penso nas voltas que percorri, nos empregos que tive, nas oportunidades que agarrei, nas portas se fecharam na minha cara, no que perdi e no que ficou depois disso. E se nada mais houver a perder, porque não saltar de cabeça? Tenho estado a preparar o salto, a colocar as cordas a passar pelos sítios certos, a estudar os ventos e os locais onde quero cair. Estou com os pés junto ao precipicio, dedos a tactear o limite onde o nada começa e a terra acaba, a olhar lá para baixo e a pensar que isto pode ser uma viagem do c******. Estou a ganhar coragem porque sei que vou andar com o estômago na boca quando começar, mas sinto que vou saltar. Falta-me reunir o resto da coragem, fechar os olhos, agarrar o estômago, deixar-me ir.
Vamos saltar?

sábado, 4 de março de 2017

Não faço jus ao momento

Porque não sei passar para palavras este sentimento de felicidade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

T minus alguns dias

Ok. É oficial. Estamos em contagem decrescente e com data definida. Se por um lado é bom saber qual é o dia D (de Desovar), por outro lado cresce aquele misto de ansiedade vs nervoso miudinho. Mas claro que há coisas que nunca mudam (um grande saravá à minha completa descontração face a tudo o que envolve uma grande logística, também conhecida como preguiça, como por exemplo a verificação do estado de alguns apetrechos de puericultura que, como tudo na vida, precisam de manutenção). E é assim que a míseros dias, quiçá horas, de parir ainda ando de volta de forras de ovos e estados de alcofas e afins, já para não falar que pelo meio ainda tenho de coordenar (breve apontamento fashion) aka improvisar as máscaras de carnaval do mai velho (oh... pausa para apreciar o momento em que pela primeira vez me refiro a ele assim), o que vale é que é que o tema escolhido pela escolinha é "mendigos" (e eu agora podia fazer tantos trocadilhos sobre isto face aos prognósticos de futuro desta família, mas vou deixar passar por agora, que os tempos são de esperança) e é da maneira que sempre dou uso a alguma das calças que ele rasga por semana. Enfim, está tudo perfeitamente sob (des)controlo, mas também não se pode ser muito exigente a esta altura do campeonato.
Se eu podia fazer tudo com tempo e sem ser a correr? Podia. Mas não era a mesma coisa.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Em modo monocromático*

Isto está quase. Isto está quase. Isto está quase. Isto está quase.

(Não está nada, ainda tenho mais três semanas até ao deadline, mas a malta tem que se animar com qualquer coisa e toooooooda a gente sabe que uma grávida também não diz nada de jeito, tem uma memória de peixe e o seu discurso nesta fase é chato com’á potassa, pouco variando entre lamentos por não arranjar posição para dormir ou porque está sempre com azia, ou porque os pés são já uns trambolhos à conta da retenção de líquidos. Somos um sumidouro de paciência, a começar pela nossa, pois por muito que uma pessoa se queira abstrair, tudo chateia, aborrece ou irrita, a começar pela rotineira pergunta do quanto tempo falta, acabando nas malfadadas conversas sobre partos, com particular ênfase naqueles que a) não correram bem; b) demoraram séculos; c) foram experiências transcendentais na vida dos pais. Pessoas, been there, done that. Por alguma razão, eu apaguei/recalquei parte do parto anterior, ok? Não me interessa saber o que correu bem ou mal ou assim/assim. Já só queremos chegar à meta desta maratona. Estamos quase em modo rastejante, a autonomia reduzida a uma hora de locomoção ou menos e tudo o resto é insignificante face à dimensão desta barriga. O mundo pode estar à beira do fim. A única coisa que ecoa em mim é: isto está quase. Isto está quase. Isto está quase. Isto está quase).
* também poderia ser "in repeat", mas não me ocorre agora nenhuma música particularmente irritante. Ou melhor, até acorre mas eu já ando chata o suficiente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A ignorância é uma benção

Se não soubesse ao que ia, agora estaria provavelmente como estava há quase seis anos atrás: calma e serena. Mas não. À medida que a data se aproxima, cresce em mim uma inquietação que eu não contava sentir. Por mais que eu repita para mim mesma que vai tudo correr bem.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Eu bem digo que a vida me é irónica

E o que é que eu descubro um mês após de vender o meu T3 para regressar ao meu velhinho T2, 10 anos de infertilidade depois e à beira de entrar no “entas”?

terça-feira, 12 de julho de 2016

Saudades

De ser dona do meu tempo, do meu espaço e do meu silêncio.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Pirilampos, “caga-lumes” ou “luzincus"

Uma vez, há muito tempo atrás numa noite fresca de Primavera, dei por mim no meio do nada, rodeada de centenas de pirilampos. Foi um momento que eu achei tão especial e mágico que ainda hoje constitui uma das minhas mais belas recordações, tendo ocorrido numa altura em que aconteceram várias mudanças boas na minha vida e o lado emocional dominava por completo as minhas decisões.
Contudo, outras decisões há que se tomam porque o rumo da vida assim o exige. Não são desejadas, não resultam de planos, sonhos ou ambições. São muitas vezes uma forma de resolver danos maiores, abreviar o tempo de duração dos “ses” que se atravessam no caminho. E o problema dos “ses” é que nunca têm um prazo de validade para se converterem em alguma coisa. Há alturas que sinto confiança e acredito em saltos de fé, e permito-me andar ao sabor da corrente, na esperança que as coisas se resolvam por si. Mas esta coisa de se acreditar na sorte normalmente não me corre bem e fui aprendendo a colocar a tónica cada vez mais na racionalidade e menos no lado emocional das decisões. Continuo a caminhar ao longo da linha do comboio, mas agora já não pago para ver se a luz ao fundo do túnel é mesmo uma saída, ou se é apenas (mais) um CP Carga em rota de colisão.
Amanhã vou assinar o contrato de promessa de compra e venda desta casa. E se por um lado sei que me vou livrar de uma série de dores de cabeça e recuperar grande parte do controlo da minha vida, por outro não deixo de sentir que de alguma forma é uma volta atrás naquilo que ambicionei e projectei durante algum tempo. Deixa um amargo de boca por muito que eu racionalmente saiba que esta é a melhor solução, uma solução que me permite readquirir novamente a capacidade de voltar a projectar outro tipo de sonhos. Racionalmente sei que estou a fazer um bom negócio, emocionalmente tenho dúvidas. Há uns anos atrás eu fazia o tal salto de fé. Hoje já não.
Curiosamente, nestes últimos dias tenho tido o pátio cheio de pirilampos, coisa que em 5 anos que aqui estou nunca tinha acontecido.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Ao ano que fica para trás

Não gostei particularmente de ti. Não me trouxeste o sossego mental que preciso, nem noites calmas e tranquilas de sono. Mas deste-me muitos momentos de introspecção, de perda e de impotência. Levaste-me muitas vezes à beira da loucura, de sentir que estava a um pequeno passo de perder a razão e o discernimento, momentos esses que, de tão intensos, vão ficar para sempre gravados em mim. Mas também me fizeste perceber que, apesar de tudo, ainda consigo manter a capacidade de rir e de me sentir feliz. Tive demonstrações incríveis de amizade e carinho, que aconteceram sem ser planeadas e no momento certo, reacendendo um pouco de mim que estava adormecido. Este foi o ano em que doei a minha farta e longa cabeleira, numa promessa solitária que não partilhei com ninguém. E senti-me um pouco menos triste depois de o fazer, apesar de em nada me atenuar a saudade. O meu filho todos os dias me pergunta se o meu cabelo vai voltar a crescer e eu respondo que sim, mas que vai demorar bastante tempo. O que não lhe digo é que ele marca o ritmo da saudade, que cresce a cada dia que passa. Este foi ano em que mais abracei. E não tendo grandes conquistas para comemorar, então que este ano tenha valido a pena apenas por isso, pelos abraços que dei e recebi. Faltou-me apenas um abraço. Penso nele muitas vezes. Não são raras as ocasiões em que sinto uma grande serenidade e é nessas alturas em que penso que talvez esteja a sentir esse abraço que me faltava. Pelo menos gosto de pensar assim. Agora podes terminar. Não tenho mais nada para te dar, nem espero mais nada de ti. Finda e recomeça. Eu vou fazer o mesmo.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Não tem preço

Ouvir uma “jovem” de 81 anos a falar das suas memórias e contar-me histórias sobre os teares de família os quais ainda hoje utiliza para fazer peças de tecelagem e que já vinham dos seus bisavós.

Encontrar pessoas que já tinha inquirido há mais de um ano e perceber que não só continuo nas suas memórias mas também sou alvo da sua simpatia e amizade.

Perceber que isto do património imaterial é algo que toca muito mais fundo às pessoas que ainda detêm estes saberes e que extravasa em muito tudo aquilo que fica documentado. E com isto perceber que tudo o que possa vir a concluir nesta malfada tese, ficará sempre muito aquém porque é-me impossível verter para o papel todos os sentimentos e memórias que emolduram a herança viva que estas pessoas transportam.

Sentir-me pequenina face à riqueza cultural que estes artesãos possuem, em particular dos mais idosos, e à sua dedicação em manter vivas tradições ancestrais, muitos deles em condições financeiras e de saúde extremamente difíceis.

Não sei se vou conseguir acabar a tese a tempo, mas mesmo que não o consiga, de uma coisa tenho eu a certeza: não me arrependo de ter escolhido este caminho. A riqueza destas gentes é incalculável e eu adorei poder conhecê-las um pouco mais e de viva voz. Tudo o que escreva sobre isto será sempre pouco, insipiente e incompleto. E eu, bicho-do-mato e normalmente pouco à vontade nestas coisas de interpelar os outros, transfigurei-me por completo com estas gentes, tal foi a empatia que senti. Não tem preço. Nem palavras.  

quinta-feira, 21 de maio de 2015

(In) Fertilidade

Mais uma vez vejo-me confrontada com a minha memória selectiva. Foi um processo longo e emocionalmente desgastante, porque no decurso de cada tratamento que se faz, constroem-se sonhos, vive-se um estado de pseudo-gravidez com tudo o que isso implica. Na realidade, aqueles dias, semanas de espera são vividos num equilíbrio precário entre alimentar as expectativas ou racionalizar o possível insucesso do tratamento, tudo isto no meio de um cocktail de hormonas que nos deixam física e psicologicamente à beira da loucura. A TPM é para meninos. O mundo gira à volta de horários, injecções, ecografias, consultas. É impossível manter uma aparente normalidade e é por isso que as pessoas bem-intencionadas, que nos aconselham para não stressar, recebem muitas vezes um olhar assassino. Não é por mal, mas esse é um discurso perfeitamente desnecessário. Se querem ser solidárias, digam tudo menos isso. Se eu tivesse recebido um euro por cada vez que alguém me disse para relaxar, estaria rica. Ok, não rica, mas dava para uma bela mariscada em família. Talvez por essa razão acabei por ser uma espécie de porto de abrigo para alguém que está a passar por isso pela primeira vez. As perguntas foram muitas e eu dei por mim a constatar que recalquei, esqueci, apaguei a maior parte dos detalhes do processo. O puto nasceu e eu fiz um reset. É como se não quisesse voltar a ser confrontada com a angústia da incerteza. Contudo, acompanhar esta 1ª viagem de alguém, foi apaziguador. Os fantasmas afinal não metem assim tanto medo. Mais uma gaveta arrumada. E ainda bem, porque tudo indica que esta viagem terá um final feliz e eu sinto-me grata por participar nela desde o início.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015

Um ano em branco. 365 dias (364 agora) por preencher. Zero resoluções. Será como tiver de ser, que isto de tentar controlar o que não depende inteiramente de mim gasta mais energia do que aquela que tenho acumulada. Ficarei feliz se não perder ninguém, se houver saúde para os que me são próximos e não faltar comida na mesa. O resto será por navegação à vista, que os mapas estão desactualizados, os gps também falham e o tempo tão depressa é anticiclónico como surgem centros de baixas pressões. Dizem que as pessoas mais felizes são aquelas que não tentam controlar os acontecimentos, que se deixam levar na corrente. Assim sendo, soltem-se as bóias e as amarras. Let the journey begin.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Dois anos

Há dois anos atrás eu não te esperava ainda e no entanto estavas nos meus planos há já tanto tempo. A vida foi abrindo espaço para ti e a pouco e pouco, mesmo sem querer “querer-te” tanto, foste ficando no nosso futuro. Depois vieram as dificuldades, a desilusão de não te conseguir concretizar durante anos. As palavras gastas dos outros, despojadas de entendimento e a eterna culpa da ansiedade, como se a vontade de te ter fosse a causa de não conseguir. Foram muitos os anos de silêncios, de ouvir muitos disparates embrulhados em boas intenções e de aprender a relativizar as coisas. Reaprender a saborear a vida sem prazos de validade, sem datas programadas, sem ver a intimidade devassada. Reaprender a viver a dois, olhando em frente em paz comigo, connosco. Olho para trás e penso que talvez tivesse sido preciso fazer essa travessia no deserto. Quando resolvemos voltar a tentar, nem eu nem o teu pai esperávamos que vingasses. Eram remotas as possibilidades, como se tudo se tivesse conjugado para que fosse improvável dar certo. Se noutras tentativas em que tudo estava perfeito tu não vingaste, porque haverias de acontecer agora quando tudo concorria contra ti? Saí do hospital sem grande esperança e enquanto fumava um cigarro pensava na sucessão de contratempos que me tinha conduzido até ali. Quando regressei ao hospital, já sabendo que te carregava no ventre, toda a gente nos veio felicitar incrédula, tão improvável que era teres conseguido acontecer. Há dois anos atrás eu pensava que ainda não seria hoje que te conheceria, mas tal como já havias demonstrado antes, tu não segues o que é suposto e gostas de fazer as coisas à tua maneira. Há dois anos atrás entraste nas nossas vidas mas há muito tempo que já fazias parte dela.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Esta coisa chamada pobreza

Enquanto a pobreza faz parte do teu quotidiano apenas por aquilo que vês nos órgãos de comunicação social, a coisa vai andando. Fala-se nela, mas não se sente. Não mais do que antes, pelo menos. A coisa torna-se mais complicada quando nos entra pela caixa de e-mail a dentro e reconhecemos o remetente. O mesmo remetente que até não há muito tempo atrás tinha uma vida igual à tua, mas que o desemprego e os salários em atraso rapidamente atiraram para esta coisa chamada pobreza. Não pede dinheiro, não pede palmadinhas nas costas, nem tão pouco pratica a pieguice, apenas e somente pede roupa para os filhos. Apenas isso. Na primeira pessoa. Sem rodeios ou auto-comiseração. Hoje, esta coisa chamada pobreza entrou pela minha vida a dentro.