Uma condutora que pensava que tinha apenas medo de aranhas.
Sabia, por experiência, que estes pequenos e encantadores seres de 8 patas, lhe
provocavam repulsa e arrepios, e procurava, a todo o custo, evitar encontros
imediatos com estes seres tão patuscos do reino animal. Perante situações em
que era confrontada com o vislumbre destes seres, saía prontamente pela porta
que estivesse mais perto, saltava para o colo de quem estivesse sentado ao seu
lado ou simplesmente desatava a correr sem direção definida, descrevendo muitas
vezes círculos perfeitos, em perfeito desnorte.
Esta condutora, exímia condutora por sinal, ia em amigável e
carinhosa cavaqueira com o seu pequeno príncipe de 4 anos e meio. Era já noite
cerrada e um aparatoso acidente levou ao encerramento da estrada que os iria
levar a casa e fez com que tivessem de regressar por uma estrada secundária
muito pouco iluminada.
A conversa prosseguia para deleite da mãe, que ia
concentrada a ouvir as histórias do pequeno petiz. Eis senão quando, pelo canto
do olho, esta exímia condutora detecta um movimento suspeito sobre o volante, a
escassos centímetros dos seus dedos. Na fração de segundo seguinte, dá-se uma
explosão de adrenalina quando reconhece a silhueta inconfundível deste ser de
oitos patas, e cuja dimensão das mesmas indiciava ser já de grande porte.
Com admirável destreza, atirou imediatamente o carro para a
berma, ao mesmo tempo que acendia a luz do habitáculo. O que viu deixou-a
complemente em pânico, mantendo apenas a lucidez suficiente para não desatar a
gritar para não amedrontar o petiz. Era uma aranha ENORME com um diâmetro de
sensivelmente 6 cm, bem constituída e robusta, que andava também ela em círculos
sobre o volante.
Sem armas ou objectividade suficientes para procurar uma forma
de se defender de tamanha ameaça, esta exímia condutora não foi capaz de fazer
frente à sua terrível inimiga de 8 patas, uma vez que se encontrava quase em
perfeito descontrolo emocional. O petiz, que observava curioso a estranha dança
que a mãe fazia fora do carro, tentava ajudar “Mãe, eu só sou corajoso com
aranhas pequenas… Com aranhas grandes não sou muito valente…”.
Sem discernimento para enfrentar o objecto do seu terror, e
que entretanto se escondera algures sob o volante, e sem coragem para voltar a
sentar-se no lugar onde momentos antes estivera a centímetros de estabelecer
contacto físico com a intrusa octopatuda, a exímia condutora resolveu pedir
ajuda ao seu cavaleiro andante, para que a fosse salvar da terrível aranha
GIGANTESCA que agora habitava nos confins do volante.
Reza a história que a aranha ainda lá continua, mas apesar
de não ter sido novamente avistada, nunca mais a exímia condutora voltou a
conduzir aquele carro, para gáudio do seu cavaleiro andante que assim recuperou
a posse da jóia da coroa. Apenas se sabe que a exímia condutora tem agora uma
certeza: não é medo. É fobia mesmo.
Vitória, vitória, acabou-se a nossa história!